Iniciamos o ano de 2020 com a intuição de que seria um ano difícil, com muitos desafios, que inevitavelmente trarão mudanças sociais, políticas e econômicas em nosso planeta.

O anúncio à OMS do surto de Covid-19 na China em 31 de dezembro de 2019 foi um indicador da tendência apocalíptica, na qual já estávamos imersos, em nível geopolítico, mas ainda não o sabíamos. Ninguém pode prever quando surgirá uma epidemia devido a causas naturais. O que podemos prever por meio da análise é cómo os conflitos podem evoluir, dependendo das posições das partes afetadas; no entanto, uma epidemia natural não é um conflito entre pessoas, mas entre organismos ou formas de vida em evolução ou involução, ou assim deveria ser.

As autoridades científicas identificam o Covid-19 como uma mutação da família Coronavirus, cujos surtos atingiram a categoria de pandemia; o primeiro foi o SARS, que surgiu em 2002 na China, Wuandong, causou 8.000 mortes e a seguinte mutação foi em 2012, identificada como MERS, no Oriente Médio, causando 30% de mortalidade em pessoas infectadas.

A China alertou a OMS para o primeiro surto de Covid-19 em 31 de dezembro de 2019, reparando protestos da chamada comunidade internacional por falta de cooperação na gestão das crises anteriores.

O atual surto ocorreu em Wuhan, China, em 1º de dezembro de 2019. O segundo surto ocorreu em um navio de cruzeiro (200 infecções), espalhado pela República Islâmica do Irã, Japão, Coréia do Sul e transferido para a Europa, sendo a França o primeiro país, mas a Itália é a mais afetada, sagora superada pela Espanha. Atualmente, sua morbidade está crescendo na Europa e em vários cantos do globo, alcançando o status de Pandemia.

Tudo isso ocorre no contexto geopolítico e geoeconômico de uma guerra comercial entre a China e os Estados Unidos, além da escalada de tensão no Oriente Médio, após o assassinato de Suleymani, general do corpo de elite iraniano Al-Quds, em um ataque de drone em Iraque, sem esquecer a grave crise humanitária que está ocorrendo às portas da Europa (1), com a suspensão do direito de asilo na Grécia e na Hungria, depois que a Turquia interrompeu seu exercício subsidiário de contenção / repressão de pessoas deslocadas pela guerra da Síria, aqueles que foram alvo de ataques desumanos às fronteiras da Europa. Repressões aprovadas, celebradas e reforçadas pela UE.

O surgimento da pandemia também desencadeou uma guerra de desinformação, com fraudes e teorias da conspiração sobre a autoria ou origem do vírus, que despertaram ceticismo na sociedade civil, que cada vez mais duvida das verdades oficiais, nestes tempos de pós-verdade e do maquiavelismo mais vulgar, que induz discursos de ódio e ações beligerantes contra as pessoas e estados do sul geopolítico (2).

A declaração do estado de alarme pelo vírus do italiano · a l´arme; as armas – na Europa, coincidiu com o envio de mais de 20.000 soldados americanos na Europa, o maior exercício da OTAN nos últimos 25 anos, finalmente cancelado. Essa curiosa coincidência levantou a suspeita de muitos cidadãos @ s nas redes sociais e não apenas.

As evidências científicas permitem concluir que o vírus não foi criado em laboratórios (3). assim fosse, teríamos motivos para nos sentirmos tristes, impotentes, ofendidos, furiosos, vítimas do absurdo da dinâmica econômica superprodutiva e dos geradores. de todas as assimetrias nas relações humanas.

A gênese natural dessa crise nos permite propor a hipótese de que talvez seja uma repreensão abençoada d Deus ou de nosso planeta, que é ao mesmo tempo leviatã e sistema, com suas estratégias de defesa e entropia.

Houve muitos ataques, que constantemente infringimos a essa matriz, que apóia todas as formas de vida, desde que vivemos para realizar aspirações de sucesso material, em nossa estrutura relacional geopolítica e econômica. É um mercado, que supomos. pode crescer até o infinito, com a extração na natureza dos recursos, alterando seu equilíbrio, para satisfazer tanto as necessidades reais das pessoas ao redor do mundo, quanto as necessidades criadas, para um suposto padrão de vida e civilização mais elevados, as regiões localizadas nos pólos privilegiados de poder, e o que entendemos por progresso.

O mercado neoliberal não é uma entidade viva, mas uma projeção abstrata, uma idéia, como o racismo e a racialização, que utiliza pessoas e recursos naturais para fazer seu metabolismo, expandir e dominar todas as formas de relacionamento social. e da vida, do poder corporativo, político e militar, para minimizá-los ou fazê-los desaparecer.

¿Como a vida na Terra seria possível, se criamos um sistema paralelo a ela, que compete contra ela e contra todas as formas de vida (inclusive a humana), que não serve para produzir e reproduzir o sistema paralelo, com suas hierarquias do poder especista, racista, capacitista e sexista?

Se a pandemia surgiu naturalmente, ocorreu o reequilíbrio do planeta; caso contrário, é o sistema paralelo que identificamos como neoliberalismo, que reafirma sua ordem mundial, onde estão as supremacias dos pólos de poder. em disputa desde o início do milênio.

Durante décadas, a humanidade, liderada pela capacidade normalizadora do norte geopolítico, vive imersa em um ciclo de relações produtivas e significativas, com base nos principios da Nova Ordem Mundial, que são contradiçoes de cobra que morde a prpia calda, especialmente desde o desmantelamento acelerado do estado de bem-estar na Europa, já quase extinto.

No nível político e econômico, são feitas declarações, com o suposto objetivo de proteger e promover o progresso das sociedades afetadas, mas perjudicam-se os avanços sociais, alcançados no último século, com lutas muito duras pelo desenvolvimento digno da vida nas sociedades. .

Essas declarações são contraditórias ao progresso social e a todas as formas de vida do planeta – como a Lei do Mercado e a liquidação dos poderes do Estado (como garante da soberania das nações, da vontade e dos direitos dos cidadãos). a favor das leis de mercado (4, 5) – elas determinam de tal maneira nossa visão de mundo, que é uma cultura ou civilização, uma cultura de competição pela pilhagem da natureza, das pessoas e entre as pessoas, comprometendo drasticamente o desenvolvimento da vida.

Durante essa pandemia de Covid-19, seu manejo ilustra a limitação que supõe ao nosso agir imaginário, sobretudo do norte geopolítico e geoeconómico, sob as afirmações da cultura neoliberal. Mesmo em países europeus, cujos governos eleitos têm alguma sigla socialista em nome de seu partido, sem a intenção de nos posicionar politicamente, nem minimizar a dificuldade de administrar uma crise dessas dimensões, mas fazendo uma análise o mais objetiva possível. Também não pretendemos subestimar o valor da competição, quando eé com fair play e quando é necessaria.

É verdade que não podemos deixar de observar com espanto e indignação que, diante de uma emergência global, já aterradora o suficiente em sua fase inicial, as relações de poder entre os estados estão sendo priorizadas, em grande medida, para ver quem fica com o monopólio ou o Maior participação de mercado na venda de antídotos em desenvolvimento (6, 7), o que implica uma longa dilatação do tempo de espera para a distribuição de antídotos, que já estaria disponível para quem precisa, se os estados não agissem isoladamente e competindo deslealmente entre si.

É necessário isolar as pessoas para evitar ou controlar a morbidade do vírus; as fronteiras devem ser fechadas, se necessário, mas o que deve haver mais é a abertura entre os estados, para cooperar e oferecer uma saída segura dessa pandemia, que meteu 7 bilhões de seres humanos em situação de emergência.

O colapso precoce dos serviços de saúde na Itália e na Espanha, caracterizado pela falta de equipamentos, material sanitário, emprego precário de profissionais de saúde e falta de pessoal (8), além do abandono a sua sorte de milhares de pessoas em campos de refugiados na Europa (9) ou em centros de detenção para estrangeiros, onde os voos de deportação foram mantidos até um dia atrás (10), conforme relatado pelo Ministério do Interior espanhol, a negligência nos centros de emergência para menores que migraram sozinhos , destacou a natureza constritiva da epistemologia neoliberal e nacionalista contra o direito à vida. Sua lógica baseada na eugenia, que permite que alguns escapem do confinamento em jatos particulares, enquanto outros são deixados pela mão de Deus, tornando-os alvos de registros irregulares de regulamentação de emprego, violência institucional racista ou de violência econômica, sublimada em miséria. O último exemplo vergonhoso de isto, foi dado por dois altos dirigentes de instituçoes saniarias francesas, ao propor públicamente testar a vaccina contra o Covid-19 em África.

Vamos entender imediatamente que os seres humanos não são uma idéia ou projeção abstrata, nem instrumentos para e pela produção. Somos uma realidade em si mesma, que gera novas realidades. Nossa primeira estrutura relacional é a família, a sociedade e a Terra, que nos dá sustento quando a trabalhamos, possui limites visíveis do espaço, assim como os limites de nosso corpo em habilidades e aspirações.

A vida na Terra se desenvolve com o mutualismo, também na família e entre as pessoas, se os relacionamentos forem saudáveis. Esta é a nossa ordem de equilíbrio natural e devemos retornar a ela, em nível político, econômico e cultural, apesar do fato de a história nos ter dotado de instrumentos e teorias de produção, que foram utilizados para os sistemas de acumulação de bens, como disse.Marx aproximadamente. ¿De que servem essas teorias, instrumentos e bens acumulados, se não puderem ser compartilhados quando forem necessários para o desenvolvimento de nossas vidas?

A mídia fala sobre a comunidade internacional, o FMI, o Banco Mundial, a OMS. Essas organizações e seus estados membros não devem reproduzir lógicas parasitárias, a serviço das elites corporativas, que ditam as leis de mercado, mas devem se colocar a serviço da humanidade como um todo para protegê-la, especialmente em situações de crise.

Não é o que acontece com a Venezuela, por exemplo,com a soberanía ameaçada ilitarmene a quem é negado apoio financeiro, para a gestão da crise, devido à antipatia que seu presidente desperta em alguns pólos de poder, mas o Equador é elogiado no mesmo contexto, porque seu presidente é lacaio da ordem promovida pelo FMI.

É uma ordem que merece a qualificação de terrorista, pelas agressões sistemáticas que pratica contra todas as formas de vida.

São indicadores claros do patógeno de nossa ordem geoeconômica e geopolítica, a irrupção dos animais nas cidades, livres da bagunça frenética de transeuntes e turistas, do saneamento do canal de Veneza (11) ou da drástica redução de emissões poluentes na atmosfera. (12), bem como as mortes e infecções de profissionais dos correios na Espanha e de saúde durante este mês de crise , tudo devido à falta de equipamentos, consequência de uma tradição moderna de aplicar recortes nao sistema de saúde pública e na segurança social

As pessoas em todo o mundo merecem respeito: o mercado não existirá sem nós, nem deve existir às nossas custas. Longe devem fiar as guerras comerciais. Já é hora de a distribuição do antídoto contra o vírus ou de desenvolvimento de outros antídotos,de forma simbiótica entre todos os estados, aproveitando a experiência de quem tem ou está administrando melhor a crise, é uma emergência, pois pode haver mais, Não é uma oportunidade de negócio, também haverá mais no futuro.

Quando os ciclos da concepção moderna e pós-moderna do ser humano, como entidade concebida pela e para a produção, para, gingantes, moinhos e cruzados, supremacistas antropomórficos do norte geopolítico, se escondem em suas covas, e então a vida animal ressurge. o ser humano toma consciência de si mesmo e a Terra respira.

Encerramos esta reflexão após transacto o Dia Internacional da Poesia e da Eliminação da Discriminação Racial., convidamos nossos leitores a refletir sobre tudo isso, para que agora e sempre possamos recuperar nossa ordem natural. Sejamos simbiontes do nosso planeta e da nossa humanidade, para que o direito à vida nunca mais seja deslocado do centro de nossa atenção quando trabalhamos, quando interagimos com um estranho ou amigo próximo, quando elegemos nossos representantes ou quando visitamos uma comunidade diferente, qualquer que seja sua condição ou espécie.

Fique em casa e siga as instruções das autoridades médicas sobre a prevenção do contágio. Tome cuidado!

Mamã negra (canto da esperança)

(À memória do poeta haitiano Jacques Roumain)

Tua presença, minha Mãe – drama vivo duma Raça,
Drama de carne e sangue
Que a Vida escreveu com a pena dos séculos!

Pela tua voz
Vozes vindas dos canaviais dos arrozais dos cafezais

[dos seringais dos algodoais!…

Vozes das plantações de Virgínia
dos campos das Carolinas
Alabama

Cuba
Brasil…

Vozes dos engenhos dos bangüês das tongas dos eitos

[das pampas das minas!

Vozes de Harlem Hill District South

vozes das sanzalas!

Vozes gemendo blues, subindo do Mississipi, ecoando

[dos vagões!

Vozes chorando na voz de Corrothers:

Lord God, what will have we done

– Vozes de toda América! Vozes de toda África!
Voz de todas as vozes, na voz altiva de Langston
Na bela voz de Guillén…

Pelo teu dorso
Rebrilhantes dorsos aso sóis mais fortes do mundo!
Rebrilhantes dorsos, fecundando com sangue, com suor

[amaciando as mais ricas terras do mundo!

Rebrilhantes dorsos (ai, a cor desses dorsos…)
Rebrilhantes dorsos torcidos no «tronco», pendentes da

[forca, caídos por Lynch!

Rebrilhantes dorsos (Ah, como brilham esses dorsos!)
ressuscitados em Zumbi, em Toussaint alevantados!
Rebrilhantes dorsos…

brilhem, brilhem, batedores de jazz
rebentem, rebentem, grilhetas da Alma
evade-te, ó Alma, nas asas da Música!

…do brilho do Sol, do Sol fecundo
imortal
e belo…

Pelo teu regaço, minha Mãe,
Outras gentes embaladas
à voz da ternura ninadas
do teu leite alimentadas
de bondade e poesia
de música ritmo e graça…
santos poetas e sábios…

Outras gentes… não teus filhos,
que estes nascendo alimárias
semoventes, coisas várias,
mais são filhos da desgraça:
a enxada é o seu brinquedo
trabalho escravo – folguedo…

Pelos teus olhos, minha Mãe
Vejo oceanos de dor
Claridades de sol-posto, paisagens
Roxas paisagens
Dramas de Cam e Jafé…
Mas vejo (Oh! se vejo!…)
mas vejo também que a luz roubada aos teus

[olhos, ora esplende

demoniacamente tentadora – como a Certeza…
cintilantemente firme – como a Esperança…
em nós outros, teus filhos,
gerando, formando, anunciando –

o dia da humanidade

O DIA DA HUMANIDADE!…